08 de março de 2017

Vestibulares colecionam histórias de vida que merecem ser contadas

Sacrifício, estresse, cansaço, dedicação, superação, conquista, recompensa, alívio. Esses sentimentos são sentidos por alunos dos cursinhos preparatórios para o vestibular. Depois da agonia da espera do resultado, a alegria de ver o nome na lista de aprovados é uma sensação indescritível. É como um prêmio, um sonho realizado.

Os cursinhos pré-vestibulares gratuitos têm papel relevante na vida dos jovens que sonham em entrar para a Universidade, mas enfrentam condições financeiras desfavoráveis. Apesar de todos os obstáculos, os alunos desses cursinhos foram destaques no vestibular da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Histórias de superação marcam a vida dos calouros que frequentaram o Cursinho Solidário. O projeto, que conta a parceria do Curso Positivo, do Instituto Positivo, da UTFPR, e de mais de 60 professores voluntários, já aprovou mais de 1.100 estudantes nos vestibulares mais concorridos. Ao longo dos 14 anos de existência, o cursinho se consolidou por meio do envolvimento de profissionais de educação preocupados com o acesso de jovens e adultos que não têm condições financeiras para arcar com um curso particular. Mas os vitoriosos ainda têm um longo caminho pela frente. Enquanto se adaptam à Universidade, alguns dos aprovados contam suas histórias inspiradoras.

Sacrifício e perseverança
João Eduardo Souza, de 17 anos, está entre os aprovados e é exemplo de sacrifício e perseverança. Ele conquistou a segunda colocação no curso de Direito da UFPR, depois de enfrentar muitas dificuldades. “A sensação de alívio ao ser aprovado é a melhor do mundo. Quando vi o meu nome na lista toda a carga horária de estudos, a preocupação, o cansaço e os sacrifícios vieram a minha mente e percebi como tudo aquilo tinha valido à pena”, conta.

Emocionado, João Eduardo lembra que passou dias inteiros no cursinho. “Não queria perder nada, estudava muito”, destaca. Ele recorda que, em alguns dias, comia apenas bala e tomava um milk shake. “Cheguei a passar mal dentro do ônibus por não comer”, lamenta. Ele pondera que isso não tem nada de fantástico ou de super-herói: “Mas me propus a estudar para passar no vestibular; tinha que conseguir e não queria perder tempo”. O conselho dele para quem pretende ser aprovado no vestibular é muito foco e dedicação. "A rotina do vestibulando é muito estressante, mas deve haver um equilíbrio e espaços para vida social", destaca.

João Eduardo escolheu Direito por se identificar com a área. “Sou um leitor ávido, aprecio filosofia e oratória. Agora, a meta é me dedicar ao curso, às aulas, conseguir um estágio e procurar sempre aprender mais, para que no futuro possa ser um advogado digno, ético e dedicado”, projeta.

Orgulho e recompensa
Lutar para superar os problemas enfrentados por pacientes especiais e melhorar a qualidade de vida deles sempre foi o objetivo de Ana Paula Roman, de 19 anos, que fez o Cursinho Solidário. Decidiu que Psicologia seria sua profissão. “Sou apaixonada pela área e consegui entrar na UFPR e ainda conquistar o segundo lugar entre os candidatos ao curso”, orgulha-se.

Ana Paula pretende estudar muito, concluir o curso e seguir por um caminho que a faça feliz. “Penso em trabalhar com educação de crianças especiais. Após concluir o curso espero fazer uma pós na área da educação, trabalhar em hospitais e depois abrir um consultório próprio. Espero também ter condições de fazer mestrado e doutorado. E quero muito ajudar pessoas que não têm condições de pagar por uma ajuda psicológica", detalha. Ela está orgulhosa de toda a sua trajetória, do esforço que fez para alcançar o seu objetivo. “A sensação é de missão cumprida”, pontua.

Ana Paula lembra das dificuldades e da correria que enfrentou para frequentar o Cursinho Solidário. “Não acreditei quando consegui entrar para o cursinho. Minha vida estava tão tumultuada e achei que não conseguiria acompanhar as aulas. Meu irmão é autista e minha mãe sofreu um AVC e depende muito de mim”, revela. Além disso, ela mora em São José dos Pinhais, o que exigia longos percursos. “Saía de casa às 17 horas para chegar às 19 horas no local das aulas. Eram três ônibus para ir e dois para voltar. Chegava às 23h30 na minha casa”, relembra. Ela precisou dividir seu tempo entre os estudos e a assistência à família. Estudava por conta própria à tarde, nas horas vagas, entre médicos e as tarefas domésticas, além de ajudar o irmão nas atividades escolares. “À noite, no cursinho, o ambiente acolhedor que os amigos e os professores me proporcionaram era atenuante”, avalia.

O nervosismo tomou conta de Ana Paula após as provas do vestibular. “Esperar pelo resultado foi uma total agonia. Lembrava da correria do dia a dia, das horas de estudo, da minha família enquanto a lista não era divulgada”. Quando soube da aprovação, ela não chorou, nem gritou, mas saiu correndo da sua casa direto para o merecido banho de lama. “Me acabei por lá, relaxei. Abracei todos e agradeci aos professores do Cursinho Solidário que estavam lá para recepcionar todos os alunos que eles ajudaram a vencer e a conquistar seu espaço na universidade. Sem eles, tudo seria mais difícil”, relata.

A caloura aconselha aos jovens que querem ingressar na faculdade que não desistam dos seus sonhos. “Mesmo com todos os problemas que possam enfrentar, vocês devem estudar muito para alcançar o objetivo final. Tem horas que vocês vão pensar que não vai dar certo, vai bater um desânimo, mas isso só faz parte do sofrido processo que é o vestibular. Esperem pela recompensa, e acreditem, ela virá”, finaliza.

Fé e dedicação
Desde pequena, Janyelle Tamaio, de 19 anos, sonhava em ser professora. Fez magistério e foi aprovada em Pedagogia, na UFPR, em segundo lugar. “Nem conclui ainda o curso e já tenho a meta de fazer mestrado e doutorado. E também quero me tornar voluntária da ONG Formação Solidária e dar aulas no Cursinho Solidário. Esse projeto é lindo e proporciona a realização dos sonhos de tantos jovens que querem cursar uma universidade, mas enfrentam problemas financeiros”, argumenta. Ter a oportunidade de cursar o ensino superior é uma sensação inexplicável, segunda ela. “É algo único e maravilhoso. É uma emoção que contagia não só a nós, calouros, mas a todos que nos rodeiam. E poder proporcionar esse orgulho a quem sempre nos apoiou não tem preço”, destaca.

Janyelle sempre sonhou em fazer faculdade. “Era até meio utópico, algo inimaginável, pois me sentia insegura e temia sofrer preconceito”, revela. “Mas agora vejo que com as oportunidades que tive, principalmente de fazer um cursinho que nunca teria condições de pagar, é possível e está mais próximo do que imaginamos”, celebra. Ela ressalta que o método de ensino adotado pelos professores voluntários fez toda a diferença. "Eles deram o seu melhor. Durante as aulas eu fui tendo a certeza de que queria ser professora, recorda”. A futura pedagoga ensina que, com fé, estudos e dedicação, nada é impossível.

Para os estudantes que sonham em ingressar no ensino superior, mas não têm condições financeiras favoráveis, o Cursinho Solidário abre processo seletivo sempre no fim do ano. A seleção dos candidatos é realizada em duas fases: a primeira delas é uma prova de conhecimentos gerais com 48 questões, do primeiro e segundo anos do Ensino Médio. A segunda fase consiste em uma entrevista socioeconômica com assistentes sociais, que vão selecionar os candidatos com maior vulnerabilidade.